Maria e a língua portuguesa

Ouvimos, com freqüência, queixas sisudas no sentido de que a língua portuguesa está se estropiando no Brasil. Elas partem não só de dentro de nossas fronteiras como também de além-mar, onde o vírus do linguajar das novelas brasileiras estaria infeccionando a pureza do idioma.

As queixas têm certa procedência, quando não redundam em uma defesa disfarçada da petrificação da língua, pretensão aliás inútil diante de seu constante movimento, seja a longo prazo, seja diante de nossos olhos. Basta ler um texto de Ruy Barbosa para perceber a distância que medeia entre sua escrita e a dos dias que correm. É bom lembrar que Ruy morreu há pouco mais de 70 anos, espaço de tempo relativamente reduzido, quando se pensa em termos de grandes alterações da língua.

Na contínua renovação, há porém muitos descaminhos. Claro que o critério para estabelecer o que constitui descaminho é relativo e depende mesmo do gosto de cada um, até que a passagem dos anos se encarregue de distinguir as novas formas linguísticas dos modismos passageiros.

Da minha parte, implico particularmente com algumas novidades como, por exemplo, essa história de falar sempre em “cima de alguma coisa, ou de alguma idéia”, expressão inevitável nas reuniões de executivos e nas assembléias, sejam elas de professores ou de sindicalistas. De resto, nessas reuniões já não se pondera nada, como se a ponderação tivesse abandonado de vez tais encontros: faz-se “colocações”, a respeito de tudo e de qualquer coisa.

Embora a redução das desigualdades sociais pouco tenha avançado no país, pelo menos algo substancial se alcançou no plano da linguagem. Nessa área, o nivelamento é a palavra de ordem generalizada. Pensa-se “a nível de nivelamento”.

Um exemplo extremo de retrocesso aparece na linguagem científica, atacada por um inimigo fora de moda que, em outros tempos, se chamava imperialismo americano. Trata-se da referência a amostras randomizadas de pesquisa, assim mesmo sem aspas. Convém explicar, pois ninguém tem obrigação de saber isso: amostras randomizadas são as colhidas ao acaso, aleatoriamente, diríamos de forma algo elegante, derivando o qualificativo de “at random”, ou seja, ao acaso.

Enfim, os exemplos poderiam ser multiplicados, ou complexificados se quiserem, mas estes me parecem bastar, como indicadores de descaminhos.

Entretanto, em matéria de assuntos linguísticos, é bom ser cauteloso na ironia, até porque a língua portuguesa não é fácil. Da minha parte, a regência verbal constitui um terreno tormentoso, no qual me movo com dificuldade. É difícil saber, por exemplo, por que o verbo importar “pede” objeto direto e o verto “assistir” tem outra pedida que, no meu tempo, era chamada de transitiva-relativa. Pelo menos, me esforço em acertar, embora me sinta parte integrante de uma espécie em extinção. A prova dessa marginalidade se confirmou quando me contaram a resposta de uma jovem redatora de jornal a um chefe de redação que reclamava de seus abusos regenciais: ”Você ainda se preocupa com essas coisas?”.

Porém, apesar das queixas dos puristas, ouso dizer que o conhecimento da língua avançou muito nos últimos tempos. E não me refiro às inovações, mas ao chamado cânone consagrado.

A Maria, que trabalha em minha casa, é um exemplo vivo do que estou afirmando. Ela tem o hábito de passar ao telefone longos minutos que me parecem horas. É a forma dela saber da vida dos parentes e amigos, de fofocar sobre este ou aquele personagem, de manter a intimidade com gente fisicamente distante.

Há alguns dias um fragmento sonoro diferente, percorrendo os espaços da casa, chegou aos meus ouvidos. Não se falava da saúde, do emprego, ou da falta do emprego de alguém. Pelo que depreendi, do outro lado da linha, um funcionário de uma dessas lojas de eletrodomésticos, cuja clientela é formada pela população de poucos recursos, intimava-a a pagar uma prestação supostamente em atraso, com a rispidez que alguns dedicam ao consumidor pobre. A resposta veio cortante: ”Eu não estou devendo nada, isso é erro de vocês. E vê se para de me tratar como se eu fosse uma inadimplente”.

Pensei em levar mais munição à Maria, sugerindo que acrescentasse um arremate demolidor, algo assim como “e não me venha cobrar, intempestivamente, juros moratórios”. Desisti a tempo. Seria uma atitude paternalista e ainda por cima dispensável, pois em matéria de cidadania e de manejo do português, Maria não precisa de ajuda.

Boris Fausto é historiador, autor, entre outros, de ”História do Brasil” (Edusp).

(Folha de São Paulo, 11/8/1996)

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~ por Rebeca Bartolote em agosto 28, 2008.

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