Incêndio, sanção, protestos…
Por Clóvis Marques
Semana intensa no arraial musical, começando com o trágico incêndio do Teatro Cultura Artística, em São Paulo.
Segunda-feira. Muito triste mesmo: o Teatro Cultura Artística destruído por um incêndio. São tão raras no Brasil as instituições duradouras e sólidas no terreno da música clássica! A Sociedade de Cultura Artística foi fundada em São Paulo em 1912! O que tem feito pela irradiação não só da música, mas do teatro e das artes em geral, já é história. Hoje ela é conhecida dos melômanos por promover as melhores temporadas de concertos internacionais do país. Logo que soube da notícia me solidarizei com Gerard e Camila Perret.
“Recomeçar, não: continuar”, diz-me ele pelo telefone. Da construção, obra de Rino Levi inaugurada em 1950 num concerto em que Villa-Lobos e Camargo Guarnieri regiam obras suas, restou pouco mais que a fachada, com o enorme painel de Di Cavalcanti intacto. Foram-se, entre outras coisas, três pianos Steinway e um cravo. O teatro será reconstruído. Apoio está vindo de todos os lados, inclusive com a criação de um grupo de trabalho no âmbito da prefeitura. Se Deus e Santa Cecília quiserem, a nova sede estará de pé no centenário da Sociedade de Artística — quem sabe (a gente é sempre tão exigente!) com uma acústica um pouco menos seca…
Terça-feira. Minha leitura do noticiário segue ritmos próprios. Só hoje fico sabendo, pelo sites VivaMúsica! e Concerto, que o presidente da República sancionou semana passada a lei, aprovada no Congresso, que estabelece a obrigatoriedade do ensino de música nas escolas. Temos acompanhado aqui a questão — inclusive com as entrevistas recentes da professora Enny Parejo e do maestro Nicolau Martins de Oliveira.
Voltaremos ao assunto. Por enquanto, é registrar que no ato da sanção foi vetado o artigo que previa que o ensino fosse ministrado por professores especializados em música. É um debate quente entre os que estão encaminhando a questão: didatas ou músicos para transmitir aos pequenos o gosto e o valor da música? Parece que continuaríamos com os didatas de “educação artística” que já atuam nas escolas, inclusive na área da música. Será suficiente? Será bom? A questão poderá evoluir de uma forma que contemple as diferentes necessidades deste país imenso e múltiplo?
Quarta-feira. A Orquestra Filarmônica de Liège veio ao Brasil há exatos dez anos e ficou devendo, no Municipal do Rio, uma Sinfonia de César Franck que chegou a ser programada e anunciada, mas na hora H seria substituída. Regia ainda o diretor musical que mais tempo esteve à frente do conjunto: Pierre Bartholomée. Desta vez, na temporada da mesma Dell’Arte, e já agora com Pascal Rophé regendo (há dois anos na orquestra), tivemos enfim a oportunidade de ouvir essa obra-prima estranha e envolvente na “voz” da orquestra “do pedaço” onde nasceu o compositor.
A Sinfonia de Franck é uma história de expectativa assombrada e seriedade antiga querendo desembocar em exultação mística ou erótica, mas adiando, adiando… Oscilamos entre a tristeza funda e a jubilação, não raro estrondosa. Uma alma de crente e de hedonista nos fala em música de orquestração carregada, sonoridades muito fin de siècle e um gosto pelos instrumentos de sopro (organisticamente usados muitas vezes) que deu aos liegenses de Rophé a oportunidade de mostrar um som ainda próprio da tradição — por exemplo, na entrada do oboé sobre cordas pinçadas e harpa no início do segundo movimento, todo ele construído com uma lógica exemplar. Rophé conferiu ao conjunto uma exaltação e um frescor bem distantes do bolor que a gravidade da música pode induzir
Sexta-feira. Repercute no Globo a insatisfação dos corpos artísticos do Teatro Municipal do Rio com os planos do governo do estado para a casa e com a presença escassa do diretor artístico, Roberto Minczuk. Os músicos, o coro e o corpo de baile consideram que a transformação das fundações culturais estaduais em Organizações Sociais seria uma “privatização” do teatro e temem que seus corpos artísticos sejam “condenados à extinção”, sendo “contratados [novos profissionais] sem concurso público e subordinados a um processo de rotatividade que pode gerar conseqüências insanáveis para a cultura estadual”.
Converso longamente por telefone com responsáveis pelo coro e o corpo de baile, mas não dá para chegar a uma conclusão. Espero voltar ao assunto. Resumindo, os profissionais insistem em que os problemas do Municipal (a mediocridade aflitiva de suas temporadas há lustros, para não dizer décadas) se devem a gestão deficiente e falta de verbas (as últimas verbas oficiais que poderiam ser consideradas muito de longe decentes, para as produções artísticas, datam do início da década); mas acham que mudar para o arcabouço da organização social, que “desengessaria” o sistema, permitindo mais autonomia decisória (em relação à burocracia e às ingerências políticas) e na captação de recursos, não configura nenhuma certeza. Citam, por exemplo, o fato de que o orçamento de 2006 da Osesp — exemplo de O.S. citado com freqüência, por seu êxito — foi preenchido em 89% pelo governo do estado de São Paulo.
Mas fica claro também que os profissionais estão preocupados com a perda da estabilidade no emprego. Não seria a qualidade do seu trabalho que fica “engessada” com essa estabilidade? Quanto ao maestro Minczuk, o que a mim causa espécie é o fato de ele mesmo e a direção do Teatro Municipal não terem vindo a público até agora dizer ao respeitável público quantas semanas ou meses ele passará por ano fazendo música com os profissionais da casa cuja direção artística assumiu. As resposta evasivas até agora parecem indicar que Minczuk e Carla Camurati consideram que ele está no Municipal para “dirigir artisticamente”, sem necessariamente realizar um trabalho de fundo com a orquestra, como maestro. Faz sentido?
Veja aqui a programação completa para o Rio de Janeiro e São Paulo.


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