Um Corpo Que Cai (Alfred Hitchcock, 1958)
109 anos do nascimento de Alfred Hitchcock
Martin Scorsese em um documentário especial sobre Um Corpo que Cai disse que ainda lembrava-se da primeira vez que viu o clássico de Alfred Hitchcock. Foi logo na sua estréia, em Nova York, com as cores do VistaVision pintando magicamente a tela, em 1958. Há exatos 50 anos atrás. Eu sou da geração que assistiu pela primeira vez ao filme após sua trabalhosa restauração há pouco mais de uma década. Mas também lembro perfeitamente da primeira vez que o assisti.
Estava em casa, em mais uma madrugada (horário perfeito para ver filme), na época que explorava faminta toda a obra do mestre do suspense que estivesse disponível na locadora (bons tempos). Lembro de ter deixado as espirais dos créditos de abertura me ligarem e de repente, entre uma das ladeiras de San Francisco e a fotografia que dava um clima de sonho (ou seria pesadelo?) ao filme, me perdi e só lembro de ter voltado ao meu sofá depois que a montanha da Paramount voltou majestosa à tela.
Um Corpo que Cai conta a história de um investigador de polícia comum (tipo de personagem que Hitch adorava), Scottie Ferguson (James Stewart) e sua obsessão. Durante uma perseguição em cima de telhados, Scottie fica pendurado em uma calha e vê o colega que tenta ajudá-lo despencar do edifício. Este trauma é o bastante para que ele desenvolva uma acrofobia (medo de altura) que o obriga a se aposentar. Durante a aposentadoria, um amigo dos tempos de faculdade procura Scottie com uma proposta de trabalho um tanto estranha. Gavin Elster (Tom Helmore) precisa que Scottie siga sua esposa. Não por suspeita de infidelidade, nada disso! O caso é que Madeleine, a, como diria Ivan Lessa, “bovinamente bela Kim Novak”, parece ter herdado a maldição que atormenta sua família há gerações, ela de repente se transforma em outra pessoa e quando volta a si não tem nem idéia do que se passou no tempo que esteve “fora”. Esta outra personalidade é Carlotta, antepassada de Madeleine, uma mulher que foi abandonada pelo amante,que tirou dela sua filhinha. As lendas em torno de Carlotta contavam que ela havia enlouquecido e cometido suicídio. O que parecia estar agora sendo revivido pela esposa de Elster, quando ela (sem saber) reencarnava Carlotta. A princípio Scottie não aceita o “serviço”, mas depois de ver Madeleine em um restaurante, ele muda de idéia e passa a seguir a loira por toda parte. Em um dos filmes mais românticos de Hitch, os dois se apaixonam enquanto vivem algumas das cenas mais famosas do cinema, como o mergulho para a morte que Kim Novak dá na Golden Gate Bridge, e a cena na floresta de sequóias. Mas atenção, se você não quiser saber dos segredos de Vertigo antes de ver o filme, pare aqui e pule para o último páragrafo! Bom, eu avisei, então continuando. Na metade do filme Madeleine parece cumprir o destino de Carlotta e se atira da torre de uma igreja. É aí que a parte mais fascinante de toda a trama assume seu lugar. Depois da morte de Madeleine, Scottie revela uma face doentia de obsessão pela mulher morta. Ele se apaixona e tenta recriar em outra garota, que parece com ela, a imagem de seu objeto de desejo.
A trama de Vertigo saiu de um livro francês chamado D’Entre les Morts, que segundo François Truffaut foi escrito para o mestre do suspense. No livro o detetive Scottie e o leitor só descobrem que Madeleine e a outra mulher são na verdade a mesma pessoa no final da história. Hitch mudou tudo e fez o espectador repartir com Kim Novak seu segredo no instante que ela olha para a câmera, para contar através de seu flashback o que aconteceu na torre no dia da morte de Madeleine. Segundo o diretor esta foi sua dúvida durante o filme, escolher entre o suspense ou a surpresa. Acabou ficando com o segundo e guiando o resto da trama em cima da pergunta: o que Scottie fará quando descobrir a verdade? Jimmy Stewart está em um de seus melhores papéis como o obcecado detetive. Na seqüência do sonho, quando o néon dos luminosos da rua entra em seu quarto e as luzes coloridas vão dominando seu rosto, ele está realmente assustador. O que não era natural para Jimmy, o típico bom americano, que encarnou Glenn Miller e um pai de família completamente humano em A Felicidade Não se Compra. Um cara comum que de repente se vê envolvido em situações improváveis. Na cena que Judy sai do banheiro coberta com o néon verde que paira no ar, pronta para mostrar o resultado do processo de transformação ao qual se sujeitou, para virar a mulher morta que Scottie tanto ama, o olhar de Jimmy é tão sedentamente triste que uma lágrima parece que pode cair a qualquer instante. Ele é tão apaixonado por Madeleine que a deseja de qualquer forma mesmo depois da morte. Ele tenta recriar sua imagem através das roupas, dos lugares que os dois freqüentaram, até que chega ao ponto de humilhar outra mulher nesta reconstrução de seu sonho. Judy, por amá-lo vai aceitar reviver mais uma vez a Madeleine que interpretou por um tempo, vai aceitar correr o risco de ser pega, vai aceitar ser humilhada. Afinal de contas não é a ela que ele deseja, e sim a loira Madeleine que já não existe mais. Uma das cenas mais fortes do filme é quando ela implora para Scottie que não quer pintar o cabelo de loiro e ele quase a agride fisicamente para convencê-la. Ele precisa que ela se torne Madeleine. O mesmo acontece na loja de roupas quando os dois estão sentados para escolher um tailleur cinza como o da falecida. Scottie sabe exatamente o modelo que procura, a dona da loja apresenta várias versões de uma mesma roupa cinza, e Judy insiste que gostou de um deles. Scottie rude, inflexível, diz que não quer nenhum daqueles, tem que ser exatamente o que ele imagina. Ele, o doce e engraçado detetive que brincava com a amiga Midge (Barbara Bel Geddes) no início do filme, não consegue nem perceber que a mulher sentada ao seu lado está se desmanchando em lágrimas. Esta transformação do personagem de Stewart durante a trama torna-se cada vez mais latente, culminando na cena final. Vertigo de maneira geral é um prato cheio para os conflitos e nuances psicológicas que habitam nossa mente, além do que supõe nossa vã filosofia. Segundo o crítico Roger Ebert, até o nome da personagem Madeleine foi escolhido como uma referência ao biscoito que trazia dor e nostalgia para Proust.
Logo que foi lançado Um Corpo que Cai não foi um grande sucesso de bilheterias. Mas ano após ano, sua importância foi redescoberta por cineastas e cinéfilos, e sua importância foi crescendo. Hitchcock era um diretor de estilo. E neste filme ele usa dos filtros e cores com maestria para dar às cenas a aura de sonho e pesadelo que acabam conectando-as. A trilha sonora de Bernard Hermann pontua toda a trama e logo na primeira seqüência já deixa o espectador ligado para a história que o mestre do suspense está começando a contar com a sua câmera. Mas uma das melhores cenas de todo filme, que mostra o lado genial e engenhoso de Hitch é certamente a câmera subjetiva, o ponto de vista do personagem de Jimmy Stewart quando ele tem vertigens na escadaria da torre da igreja. Para conseguir aquele efeito o diretor deu um zoom in na câmera ao mesmo tempo em que a puxava para cima. A sensação é de que tudo está se afastando, as escadas se movendo e o personagem, que tem pânico de altura, está ali flutuando sem proteção, solto na torre. E a gente flutua com Hitchcock através da magia atemporal de Um Corpo que Cai.
( fonte : osarmenios.com.br )




Deixe uma resposta