Pelas dobras das bordas – a compreensão do termo subúrbio a partir do termo francês “banlieue”

Adson Cristiano Bozzi Ramatis Lima.

Professor assistente da Universidade Estadual de Maringá, mestre em Estudos Literários (UFES), especialista em Filosofia Contemporânea (UFES), arquiteto pela UFES.

Métro, boulot, dodô”.

Ne regrette pas Paris, ta banlieue est très jolie.

1. Introdução

Mais de uma vez um tradutor se colocou face a um importante dilema: como realizar certas traduções – pensando-se que toda tradução é uma seleção entre termos aproximados – de expressões que, se de um lado se revelam pertinentes sob o ponto de vista lingüístico, não são tão adequadas se as considerarmos a partir da história e da etimologia. Este é o caso, parece-nos, do termo francês banlieue , geralmente traduzido para a língua portuguesa por “subúrbio”.

A reflexão sobre estes termos e sobre a escolha efetuada pelos tradutores nos foi suscitada a partir de um fato ocorrido no início deste século e que foi crucial para a sociedade francesa. No final do ano de 2005 um importante acontecimento político turvou a aparente transparência de uma sociedade que tanto se orgulha dos seus valores ditos republicanos: filhos de imigrantes, africanos do Magreb em sua maioria, provocaram o que poderia perfeitamente ser descrito como uma rebelião – ou, fazendo-se uso de um termo ainda mais dramático: guerra civil – contra o poder instaurado, com ações de uma insuspeita violência. Esta rebelião teve como origem uma entrevista do então Ministro do Interior, Nicolas Sarkosy, na qual ele lamentava a não integração à sociedade francesa das camadas mais populares dos imigrantes; e, ainda, afirmava peremptoriamente que a responsabilidade de tal fato recaía justamente nos ombros destes jovens chamados, na França, de “segunda geração”. Esta entrevista talvez passasse desapercebida se não fosse o termo utilizado pelo ministro francês ao se referir a estes jovens: racaille , traduzido pela mídia brasileira como “gentalha”.

Na França, assim como em praticamente todas as sociedades ocidentais ou ocidentalizadas, há um considerável número de cidadãos sem acesso a um ensino de qualidade, e, conseqüentemente, sem oportunidades profissionais condizentes com a realidade do restante da população; neste sentido, não causaria espécie afirmar que estes extratos sociais específicos acabam por sobreviver à margem – nas dobras ou nos interstícios – de uma rica sociedade pós-industrial. Além deste fato mais propriamente social, há uma questão não menos importante, e que nos remete ao espaço: estes jovens, assim como os seus pais, não ocupam territórios de localização variada, mas se aglomeram justamente no espaço das cidades francesas que é o mais suscetível de despertar preconceitos: a banlieue , termo, como já foi aludido, traduzido geralmente para o Português por “subúrbio”. Esta ocupação não é casual e nem se deve a interesses de “integração”, mas é uma ocupação claramente determinada pelo valor do solo no modo de produção capitalista: como são áreas mais distantes do centro e relativamente mal servidas de equipamentos urbanos, o valor do solo parcelado é baixo . Foi desta maneira que a lógica do capital determinou – isto é, selecionou, escolheu e assinalou – um espaço para a construção das habitações das classes sociais de menor renda. E mesmo a morfologia destas habitações seguiu esta lógica: como o valor da terra é baixo, mas ainda assim representa um valor, foi necessário aproveitá-la ao máximo, construindo “em camadas”, isto é, sobrepondo apartamentos. A construção de grandes prédios de apartamentos, os grands ensembles , ou H.L.M. - duas expressões que poderiam ser traduzidas, a partir da experiência urbana brasileira, por “conjunto habitacional” - deu-se, justamente, nestes espaços de bordas .

Nestes “conjuntos habitacionais” há uma quase impossibilidade de integração com o restante da sociedade, e isto ocorre devido a uma série de circunstâncias: as suas escolas são freqüentadas unicamente por este extrato social específico e a mobilidade para as zonas mais centrais das cidades é dificultada, ou, quando se dá, é apenas no período da ocupação profissional. Por outro lado, esta não integração leva à formação de uma cultura urbana própria, com códigos lingüísticos próprios que não são compreendidos – ou são compreendidos com dificuldade – pelos extratos sociais que tiveram pleno acesso à educação formal; além da formação de atividades esportivas próprias e oportunistas . E, ainda sobre os conjuntos habitacionais, há um fato social que separa a habitação multifamiliar tal como é realizada na França dos seus correlatos no Brasil. Se, aqui, os grandes prédios de apartamentos são moradias de diversas classes sociais, inclusive das mais abastadas, o mesmo fenômeno não se produz na França, uma vez que neste país apenas as chamadas classes mais “desfavorecidas” aceitam – ou são constrangidas a aceitar – esta forma de habitação .

À guisa de resumo, poder-se-ia dizer que houve o estopim – a declaração “bombástica” do ministro francês – para uma situação “explosiva” que não se formou de imediato, mas, ao contrário, forjou-se ao longo de muitas décadas. E o resultado não poderia ser outro: casas e carros incendiados, assassinatos e atos de violência com claras motivações sociais e mesmo raciais.

Na esteira deste acontecimento, que poderia ser aproximado às jornadas de Maio de 1968 , uma parcela da sociedade francesa dita “integrada” começou a se interrogar sobre a natureza dos territórios de exclusão que os mecanismos sociais – o modo de produção e as relações de produção – lentamente secretavam ao produzir as mercadorias que construíam a imagem internacional da França. Sob este aspecto, citemos Henri Lefebvre, que, em um livro posterior aos acontecimentos de Maio de 1968, declarou:

O novo proletariado? A nova “classe operária”? Eles não são mais encontrados nas indústrias de ponta altamente técnicas, mais nos H.L.M., nas cidades e bairros novos. (…) A humilhação e a ausência de liberdades que são ocasionadas pela presença (e da ausência) dos centros de decisão e dos nós da vida social, são percebidos com acuidade. A alienação multiforme é vivida obscuramente como uma angústia surda e profunda (1973, p. 210 – tradução nossa).

O autor francês se referia ao proletariado que ressurgia das cinzas da rebelião de 1968, mas estas palavras não são menos adequadas às jornadas de 2005: os espaços de banlieue são os espaços de exclusão por excelência deste lupenproletariat que sequer tem o direito de se considerar – ou de ser considerado – como um excedente de mão de obra a espera de um aumento da produção, uma vez que, como é conhecido, os exércitos excedentes de mão de obra agora se encontram nos países situados à margem dos países hegemônicos capitalistas, como o Brasil, a Índia e a China. O resultado é um poderoso mecanismo de alienação sentido como desespero, e, sobretudo, como ressentimento.

2. A banlieue e o subúrbio

Realizadas estas considerações preliminares, é mister estabelecer as diferenças existentes entre a palavra francesa banlieue e o seu correspondente no idioma português, a palavra subúrbio. Este procedimento metodológico justifica-se porque evidencia o que foi afirmado no caput deste texto, a saber, a tradução como o resultado da escolha de uma possibilidade léxica e da conseqüente exclusão de todas as outras. Este procedimento apresenta a inegável vantagem de evidenciar o que a escolha efetuada pelos tradutores revela e o que, ao contrário, se vela.

Como já havíamos afirmado não poucas vezes ao longo deste texto, o termo subúrbio escreve-se, em Francês, banlieue , e, como não há sinônimos perfeitos, tentaremos nas linhas a seguir expor a etimologia deste termo com a intenção de explicitar os seus significados, e, talvez, justificar esta escolha tradutiva. Banlieue não expressa, como uma leitura apressada – e politicamente interessada – poderia indicar, o “lugar dos banidos”, como uma afirmação sobre o espaço da exclusão social; ou, ainda, o espaço para onde as pessoas banidas pelas autoridades eram enviadas . Este termo indica, na realidade, o “lugar no qual o poder se exerce” – isto se torna evidente na análise da palavra, composta por dois termos: lieue , como lugar, e ban , termo de origem germânica que indica o título de uma autoridade, mas significando aqui o poder de jurisdição . Assim, percebe-se que não há nenhum sentido pejorativo histórico e etimológico envolvendo esta palavra, e se atualmente na França as banlieues são compreendidas e vistas com certa reserva por determinados setores da sua sociedade, isto tem uma história cujo princípio não se encontra na origem da palavra. Estas afirmações iniciais são importantes porque nos auxiliarão a estabelecer o sentido da diferença, isto é, o que separa o termo francês do termo português, o “subúrbio” . Assim, é interessante observar que, se subúrbio indica um espaço nos arredores da cidade , isto é, fora da cidade, banlieue não indica – ao menos expressamente – um determinado lugar em referência à cidade. Para esta questão espacial há, na língua francesa, o termo faubourg , isto é, for burg , com a indicação clara de “fora da cidade” . Resumindo, poder-se-ia afirmar que banlieue não é subúrbio e, muito menos, suburb , palavra que na cultura norte-americana está revestida, como se sabe, de um outro sentido social .

A tradução realizada é, como na maioria das vezes, uma escolha apenas aproximada. Mas esta escolha, realizada em detrimento de termos como “cercanias” ou “arredores”, tem uma justificação precisa: atualmente, tanto o termo banlieue quanto o termo subúrbio podem estar revestidos de uma conotação pejorativa. Lugares de urbanização tardia, mal servidos por equipamentos urbanos essenciais, e, em muitos casos, distantes dos locais de trabalho, ou, ainda, locais escolhidos para a instalação de indústrias poluentes, os subúrbios e as banlieues não são, certamente, o lugar de eleição quando as classes sociais hegemônicas desejam se estabelecer. Se a isto se somar o inelutável e já aludido fato de que o valor do solo é nitidamente inferior (por todas as razões já elencadas) ao das áreas citadinas, está criado um panorama bastante propício para que uma determinada região seja considerada – e compreendida – à parte do resto da cidade, ou, como no caso de certas banlieues , uma cidade que gravita em torno de uma cidade maior. Mas, neste momento da nossa reflexão, talvez seja importante estabelecer uma dimensão diacrônica para as banlieues , isto é, situar no espaço e no tempo o seu surgimento.

Na cidade de Paris a banlieue está estreitamente ligada ao fenômeno do transporte de massas, e, mais precisamente, às ferrovias, implantadas a partir do ano de 1837 (Lambert, p. 96, 1996) – as ferrovias foram um importante instrumento de urbanização, a ponto de uma nova expressão ter sido criada para designar estas ferrovias: chemin de ferre de banlieue . Ao longo dos trilhos ou em torno das estações, ruas foram abertas, praças foram criadas, permitindo, assim, o surgimento de novos bairros (Lambert, p. 102, 1996). Na França, apenas a partir da metade do século XX a ferrovia deixa de ter este papel fundamental na estruturação urbana, que passa, então, a ser desempenhado pelo automóvel individual. Este fenômeno tornado possível pela ferrovia — a qual, aliás, desempenhou um papel urbanizador assaz importante, permitindo, por exemplo, a criação dos balneários de vilegiatura — remodelou o território de muitos países europeus.

Mas o processo de urbanização das banlieues não se deu sem profundas conseqüências sociais: aumentando o território habitado e habitável, formou-se um espaço que facilmente poderia se tornar um espaço de exclusão social – pode-se citar, à guisa de ilustração, a frase de Lefebvre: “Em suma, antes da época industrial, a sociedade dissimulava suas partes vergonhosas, suas fraquezas, seus vícios: a loucura, a prostituição, as doenças; ela os segregava em lugares malditos. A sociedade burguesa dissimula, ao contrário, aquilo que ela vive, sua parte ativa e produtiva” (1999, p. 19) . Da segregação dos vícios no próprio coração das cidades passou-se à segregação do trabalho, nas cercanias da cidade; porém, desta vez, longe de seu centro econômico e político, e jamais, como no caso anterior, ao alcance de uma mão. Ora, se como já afirmamos acima, o mito do “lugar dos banidos” rondava todo o tempo o termo banlieue , isto não foi certamente por acaso… Nas banlieues , muito próximo se está de ser “banido da sociedade”, de ser colocado a sua margem, em uma simples dobra das suas bordas.

A partir desta breve exposição, é mister reconhecer que os subúrbios tiveram uma formação diferente das banlieues, e esta é a diferença histórica já aludida por nós . Seja a partir de um loteamento para as classes médias ou baixas, seja como uma região de chácaras para a constituição de residências secundárias das classes sociais hegemônicas, o subúrbio, no Brasil, é uma região mais ou menos afastada das áreas centrais constituindo-se, quase sempre, em uma área de habitação .

3. Últimas considerações: uma sátira

Como uma tentativa de realizar um possível cotejamento de situações que possam se mostrar, ainda que de maneira fragmentada, similares, tomemos um outro conflito urbano em regiões de bordas como material de estudo e análise. Entre os dias 13 e 16 de Agosto de 1965 a população negra do bairro pobre de Los Angeles, Watts, se insurgiu contra o alijamento dos seus direitos no interior da sociedade americana. Carros e casas foram queimados, comércios foram pilhados e agentes da lei foram atacados. Não se tratava, como se poderia inicialmente supor, de uma luta pelos seus direitos civis, mas de uma autêntica luta de classes: despossuídos em meio à abundância, os negros queriam, ou melhor, exigiam, uma integração plena àquela sociedade – não somente o direito a voto, mas um direito à totalidade das condições materiais colocadas — ao menos virtualmente — a sua disposição. Ora, os jovens rebelados das banlieues francesas não desejavam nada de diferente, uma vez que postulavam uma integração educacional, profissional e material. Referindo-se aos acontecimentos de Agosto de 1965, os situacionistas fizeram a seguinte observação:

A revolta de Los Angeles é uma revolta contra a mercadoria, contra o mundo da mercadoria e do trabalhador-consumidor hieraquircamente submetido às medidas da mercadoria. Os negros de Los Angeles, como os grupos de delinqüentes de todos os países avançados, mais radicalmente porque na escala de uma classe globalmente sem futuro, de uma parte do proletariado que não acredita em chances notáveis de promoção e de integração, tomam ao pé da letra a propaganda do capitalismo moderno, a sua publicidade da abundância. Ele querem imediatamente todos os objetos mostrados e abstratamente disponíveis, porque eles querem usá-los . Deste fato eles recusam o seu valos de troca, a realidade da mercadoria que é o seu molde, a motivação e o seu fim último, e que tudo selecionou (1996 – destaques do autor ) .

Aos descrever a revolta do bairro de Watts, os situacionistas parecem prenunciar a revolta dos jovens magrebinos nas banlieues do seu próprio país. O pano de fundo não é apenas o racismo, embora este fenômeno tenha sido determinante (de outra forma, como justificar a virulência verbal do Ministro do Interior?), mas uma luta de classes , uma luta entre aqueles que pregam a integração e aqueles a quem não são oferecidas as condições para tal. O bairro pobre de Watts de 1965 parece refletir estranhamente as banlieues de Paris de 2005 e os subúrbios atuais de algumas das cidades brasileiras, e é justamente este reflexo – cambiante e incerto, como os reflexos costumam ser – a realidade revelada cada vez que o termo banlieue é traduzido para subúbio; trata-se, certamente, de uma realidade de alienação e de reificação que se apresenta.

Pensando-se, então, nas relações entre o subúrbio e as banlieues , e no caráter alienante destes espaços, poder-se-ia citar, como epílogo a este texto, a sátira do poeta francês Francis Ponge, extraída do livro O partido das coisas e intitulada com muita propriedade O monólogo do empregado. Trata-se de uma bela ilustração do homem tornado coisa, reificado até nos seus mais profundos sentimentos, e impotente diante de uma realidade social que forçosamente o ultrapassa . O texto tem como intriga a vida de um simples assalariado, cuja existência voluntariamente anódina transcorre entre um escritório na cidade e a sua residência em uma banlieue “não longe de Paris” “em uma casa que se avista da ferrovia”. Traído por sua esposa, que o abandona por um americano “cuja zeladora fazia pouco caso”, e encarregado desde então do seu único filho que “o liga à ordem social, e cuja existência agrava a [sua] condição de servo”, constrói o seu cotidiano a partir de uma expressa tentativa de “coisificação”. Nem um remorso pela esposa infiel, nem um lamento mais veemente pela sua função social de pai, nenhuma revolta ouve-se deste habitante da banlieue . Esta se revela, então, como o espaço do conformismo: “Se a cólera me anima eu me acalmo imediatamente, pensando na sorte de ter sido colocado, tanto pelos meus interesses quanto pelos meus sentimentos, na classe que possui a servidão e a inocência” (1984, p. 18 – tradução nossa). Nestas frases ecoam duas diferentes situações: vê-se com clareza que o personagem se entrega voluntariamente, quase com esforço, ao estado de coisificação e de alienação, o que, aliás, não deixa de ser irônico, uma vez que a alienação no sentido clássico é, sobretudo, um estado de inconsciência; e surge, igualmente, um aparente paradoxo, a classe dos pequenos trabalhadores é descrita pelo personagem como possuidora da “servidão e da inocência” – ora, a inocência é o estado da ignorância e do desconhecimento por excelência… Se se sabe inocente, já não se é mais… É neste ponto que percebemos mais uma ironia do texto, e que nos remete a própria questão do espaço: as banlieues e os subúrbios não são espaços lisos, mas, ao contrário, são bordas com dobras, com duplos : vira-se uma parte sobre a outra, e surgem a inocência e a consciência, a revolta e a repressão, o mecanismo e o inanimado, partes de um mesmo processo de uma sociedade fragmentada e à parte.

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Referências :

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PICARD, Alleth. Le tramway: désir de ville pour la banlieue. In: MALVERTI, Xavier (Org.). Banlieues. Paris: Parenthèses. 1996.

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SARTRE, Jean-Paul. Situações I. São Paulo: Cosac&Naif, 2005.

Washinton Post. 12 de novembro de 2005.

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Em uma tradução literal: “Metrô, emprego, cama”. Locução difundida na esteira dos acontecimentos de maio de 68. Trata-se, na realidade, da abreviação do verso de um poema de Pierre Béarn: ” Métro, boulot, bistrots, mégots, dodô, zero ” (”Metrô, emprego, bares, guimbas, cama, zero”). Observa-se que a abreviação do verso potencializou o seu efeito político, tornando-o, mais claramente, uma crítica à sociedade de consumo e a seus efeitos de banalização e de reificação.

“Não lamente não morar em Paris, o seu subúrbio é muito bonito.” Frase do Archipel , livro didático para o ensino de Francês para estrangeiros.

Há, na França, o Ministério dos Transportes, do Equipamento, do Turismo e do Mar, encarregado, dentre outras tarefas, de planejar e executar políticas de reabilitação urbana. Logo, a questão do equipamento deficiente deve ser compreendida em relação às regiões centrais das cidades maiores – o transporte público, por exemplo, é notavelmente mais deficiente nas Banlieues que na cidade de Paris.

“Habitação de Aluguel Moderado”, em uma tradução mais literal.

Trata-se, naturalmente, de uma aproximação, posto que há uma diferença fundamental entre os H.L.M. e os conjuntos habitacionais: enquanto estes são de propriedade privada, aqueles pertencem ao poder público.

Na língua francesa há uma divisão em classes quando se trata de fazer referência a prédios de apartamentos – para as classes mais abastadas diz-se “immeuble d’hôtel particulier”, para as classes médias diz-se “immeuble d’habitation”, e em relação às classes populares diz-se, justamente, “grands ensembles”. Sobre esta questão afirmou o arquiteto francês Jacques Lucan: “A lista destes Grands Ensembles que provocaram críticas e rejeição poderia se prolongar, alguns dentre eles ocuparam nos anos 1980 e 1990 as páginas policiais, tornados, como foram, locais de segregação social e mesmo de banimento [.]” (2001, p. 75). A explosão social destes “banidos” ainda estava por vir…

Estamos referindo-nos ao free-running ou parkour , esporte criado na periferia da cidade de Paris por migrantes de origem magrebina. O caráter oportunista deste esporte é o uso de elementos urbanos, tais como muros e escadas, como obstáculos. A este respeito ver: Lima, Adson Cristiano Bozzi Ramatis. A mercadoria espetacular - um ensaio sobre a arquitetura contemporânea pensada como espetáculo. Volume 7, número 10, dezembro de 2006 . Acessível em: www.arq.ufmg.br/ia/.

Os aludidos immeubles d’hôtel particulier não podem ser compreendidos como as habitações multifamiliares das classes mais abastadas que, nas grandes e médias cidades brasileiras, dominam e recortam o sky line - aqui se trata de construções que, contrariando os princípios mais correntes e difundidos de como seria a “habitação de alta renda”, podem ter trinta ou mesmo quarenta pavimentos.

Mas veremos adiante que a aproximação mais pertinente seria com a revolta dos negros americanos do bairro de Watts ocorrida em 1965.

Há, na língua francesa, expressões como: ” être en rupture avec le ban ” (”estar em estado de ruptura com o ban “, que significa, para um banido, transgredir uma determinação judicial e entrar ilegalmente em um território nacional) e ” mettre quelqu’un au ban de la société ” (colocar alguém ao ban da sociedade, significando denunciá-lo como indigno e desprezível). O uso destas expressões poderia autorizar a tradução de banlieue como o lugar próprio dos banidos, mas esta interpretação, como veremos, não é justificada pela etimologia da palavra (LAROUSSE. Paris: Larousse-Bordas. 1998 – tradução nossa do Francês para o Português).

Ver, a este respeito, LAROUSSE. Paris: Larousse-Bordas, 1998.

Há, na língua portuguesa, o termo “periferia”, normalmente associado a aglomerações urbanas de baixa renda e que são distantes dos centro da cidade; e, na língua francesa, há o termo périphérie , associado a um conjunto de bairros situados no contorno de uma cidade (ver, a este respeito, LAROUSSE. Paris: Larousse-Bordas, 1998). Ainda que o Le Petit Robert admita o termo périphérie como sinônimo de banlieue — ao contrário do Larousse , que não o admite –, é, entretanto, incomum que nos dicionários de tradução do Francês para o Português (ver Referências) indiquem periferia como sinônimo de banlieue . Desta maneira, excluímos da nossa possibilidade léxica a periferia — e todo o conjunto de significados sociais, políticos e econômicos que este termo porta — como sinônimo de banlieue. Além disto, é importante salientar que o termo periferia tem significados geopolíticos que o termo subúrbio não apresenta — diz-se, por exemplo, “países periféricos” para se referir aos países não hegemônicos.

A origem etimológica do termo subúrbio é a palavra latina suburbìum , que significa nos arredores ou cercanias da urb .

Os franceses fazem uma distinção entre faubourg e banlieue : faubourg é o espaço urbano nas imediações mais próximas da cidade, ao passo que banlieue é o espaço que se segue após o faubourg. Ver a este respeito: Picard, 1996.

Os jornais americanos tiveram uma certa dificuldade para traduzir o termo francês banlieue , ao noticiarem as revoltas de 2005, uma vez que o uso isolado do termo anglo-saxão suburb tornaria as notícias quase incompreensíveis para um público acostumado a associar esta última palavra ao lugar de moradia das classes sociais mais favorecidas. O Washinton Post de 12 de novembro de 2005 usa os termos poor suburbs e immigrant neighborhoods ao se referir ao local de origem das revoltas de 2005.

Ferrovias de banlieue .

Lefebvre reservaria palavras bem pouco elogiosas para um empreendimento urbano realizado pela “Sociedade Nacional do Petróleo da Aquitânia” em 1951 na sua região natal: “(…) empreendimento semi-colonial realizado pelo poder público em uma região sub-desenvolvida” ( Apud: Lucan, 2001, p. 71).

Além destas questões elencadas, é importante observar que os subúrbios são, na realidade, espaços na periferia das cidades, e não, como no caso de muitas banlieues , espaços periféricos dotados de certa autonomia administrativa.

Não cabe no espaço deste texto explicar exaustivamente os processos urbanos que, nas cidades brasileiras, levaram à criação dos subúrbios; no entanto, pode-se fazer alusão a dois diferentes processos em duas diferentes cidades, Vitória e Florianópolis. Na primeira cidade, o saneamento do início do século XX teve como resultado mais evidente a fixação das classes sociais hegemônicas nas áreas centrais, com as áreas periféricas tornando-se uma espécie de reserva para uma futura expansão da cidade, com a criação de serviços e equipamentos urbanos de uso apenas ocasional. A cidade de Florianópolis, por sua vez, não conhecendo nenhum processo de saneamento importante no primeiro quartel do século XX, fez da sua periferia uma região de chácaras para o retiro da parcela da sua população que podia pagar a sua posse. Mas este são apenas dois exemplos de muitos que poderiam ser descritos, e deve ficar claro que se de uma abordagem de caráter ilustrativo. Sobre a questão do surgimento dos novos bairros em Vitória remeto leitor aos seguintes artigos: O traçado de novos bairos em Vitória: repercussões do projeto de um novo arrabalde , de Eneida Maria Souza Mendonça, e “Novo Arrabalde”: o desenho de um novo modo de vida , de Carlos Roberto Monteiro de Andrade. In: Leme, 2005.

A referência à sátira de Ponge, publicada pela primeira vez no longínquo ano de 1926, justifica-se porque antecipa de certa maneira os acontecimentos de Novembro de 2005, assim como a revolta dos negros americanos em Agosto de 1965, – faz-se sempre referência a um determinado extrato da sociedade, colocado à parte, na condição de “coisa”. A este respeito, escreveu Sartre: “Quando Ponge quer beneficiar e fazer beneficiar aos outros o sentimento que ele julga reclusos no âmago dos objetos, isso não significa que ele faça das coisas homenzinhos silenciosos, mas antes que toma os homens deliberadamente como coisas” (2005, p. 248). Sobre a questão do fenômeno que poderíamos muito bem nomear de “coisificação-mercadoria”, o próprio Ponge escreveu: “Esses atropelos de caminhões e de carros, esses bairros que não alojam ninguém, mas apenas mercadorias, ou dossiês das companhias que as transportam [,] esses governos de especuladores e de comerciantes, tudo isto ainda passaria se não nos obrigassem a tomar parte [...].” Apud Sartre, 2005, p. 236.

~ por Rebeca Bartolote em Agosto 11, 2008.

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