Razão e sensibilidade

22 de Julho de 2008

Radicado na França desde 2000, o artista plástico Gonçalo Ivo inagura hoje, no Museu Nacional de Belas Artes, no Centro do Rio, a exposição A Cor-Espaço, reunindo oito pinturas de grandes dimensões e 21 objetos de madeira. No mesmo evento, será lançado o livro Gonçalo Ivo, de Fernando Cocchiarele, lançado pelas Edições Pinakotheke, sobre a obra do pintor.

Numa época em que tantos artistas aderem às instalações, à fotografia e a releituras fáceis de experimentos conceituais há muito tempo exauridos, decretando a morte da pintura, a obra de Gonçalo Ivo se destaca não só pelo seu rigor e valor estético, mas quase como um símbolo da resistência aos modismos ditados pela mídia e pelo mercado. Gonçalo é fiel não somente à pintura, mas a uma idéia da arte que vem sendo sistematicamente vilipendiada, no Brasil e no exterior – uma arte que valoriza a técnica, a pesquisa, a investigação consistente, e não experimentação descabelada e efêmera, nem as facilidades da arte meramente decorativa.

Não que Gonçalo Ivo seja um pintor cerebral. Mais de uma vez ele já declarou ser um intuitivo, mesmo quando dialoga com mestres da arte moderna, como Klee, Mondrian, Braque e Morandi. Na “geometria sensível” de suas telas, porém, percebe-se um controle absoluto da pincelada, dos materiais e, sobretudo, das inusitadas combinações cromáticas que são a marca registrada de sua linguagem. Controle que é fruto de um aprendizado profundo, de toda uma vida, aprendizado hoje fora de moda.

Nascido no Rio de Janeiro em 1958, filho do escritor Ledo Ivo, Gonçalo fez sua primeira exposição individual em 1980, depois de estudar com Aluísio Carvão e Sergio Campos Mello, no Museu de Arte Moderna. Somou ali o conhecimento teórico sobre as vanguardas às primeiras influências, Volpi e Iberê Camargo – aliás dois pintores vitimados hoje por uma espécie de conspiração de silêncio, que se abate sobre toda arte que não derive da matriz Helio Oiticica/Ligia Clark.

Dez anos atrás, Gonçalo Ivo já declarava: “A arte contemporânea se tornou uma via de mão única, em que as instalações, os objetos, os vídeos são a nova academia. Os professores de escolas como a de Artes Visuais do Parque Lage, por exemplo, também conduzem os alunos a só produzir trabalhos conceituais. Os jovens sabem tudo sobre Richard Serra, mas não conhecem Guignard”. De lá para cá, sinto dizer, a situação só piorou. Mas a arte de Gonçalo está cada vez mais viva e consistente, como demonstra a exposição no MNBA.

( por Luciano Trigo )

~ por Rebeca Bartolote em Julho 25, 2008.

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